Pesquisa da Escola de Comunicação (ECO) apresenta abordagem sobre o tema e propõe reflexões coletivas.
Os casos de feminicídio no Brasil têm apresentado um aumento que não deve ser ignorado. De acordo com levantamento divulgado pelo Fórum de Segurança Pública às vésperas do Dia da Mulher, nos últimos dez anos os casos de assassinatos cometidos contra mulheres apenas por serem mulheres aumentaram de 449, em 2015, para 1.568, em 2025, o que equivale a um crescimento de mais de 300% em uma década. Ainda que as maiores taxas sejam observadas nas cidades menores, o aumento do número de registros pode também estar relacionado à maior compreensão do tema, bem como sua popularização a partir de veículos midiáticos.
A lei que trata do crime foi sancionada em 2015 (Lei nº 13.104/2015), definindo feminicídio como um homicídio cometido “contra a mulher por razões da condição de sexo feminino”. Com isso, o feminicídio passou a ser considerado um crime hediondo, com punições mais severas previstas no Código Penal. Mais recentemente, em 2024, o feminicídio passou a ser considerado um crime autônomo no Código Penal, não sendo mais compreendido como um tipo de homicídio agravado, mas sim como uma falta específica, que conta com regras próprias de punição. Atualmente, para um assassinato ser reconhecido como feminicídio, ele deve ocorrer em contexto de violência doméstica ou familiar, ou ser motivado por discriminação e menosprezo à condição de mulher. Os casos, infelizmente, não são poucos.
A maioria dos casos de feminicídio registrados no país são cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Entre eles, está o incidente que tirou a vida da advogada Tatiane Spitzner, jogada do quarto andar pelo marido, em 2018, por exemplo. No entanto, nem todos esses crimes acontecem em cenário doméstico. Um caso mais recente ocorreu em novembro de 2025 no campus do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ), no qual duas servidoras públicas funcionárias da instituição – a diretora Allane Pedrotti e a psicóloga Laysa Pinheiro – foram assassinadas por um colega de trabalho. O acontecimento levantou debates sobre a violência contra a mulher e gerou uma nota oficial do Ministério das Mulheres, que afirmou: “A violência contra mulheres, em qualquer espaço, é inaceitável e deve ser combatida pela sociedade de forma veemente”.
Feminicídio no Telejornalismo
A observação dessa realidade enfrentada por mulheres motivou a pesquisadora Júlia Versani a desenvolver sua tese de doutorado “Feminicídio no Telejornalismo: matriz melodramática e novos ideais femininos”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCOM/UFRJ) em 2023. Graduada em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Júlia sempre se interessou por estudos de gênero. Após investigar o discurso de ódio antifeminista ao longo de sua pesquisa de mestrado – também desenvolvida no PPGCOM –, no doutorado a pesquisadora voltou seu olhar para a maneira como o feminicídio é apresentado no telejornalismo brasileiro. De acordo com a pesquisadora, essas mídias oferecem, para além do texto, outros elementos simbólicos que podem ser analisados, como imagens e sons.
Assim, a investigação analisou telejornais exibidos entre 2018 e 2020, utilizando a plataforma de streaming Globoplay para acessar tanto programas de alcance nacional quanto produções locais. Um dos principais achados da pesquisa apoiou-se na relevância dada à dor das famílias nas reportagens. De acordo com a pesquisadora, há um espaço significativo ofertado às mães das vítimas, que muitas vezes são transformadas em porta-vozes da luta por justiça. Ao mesmo tempo, ainda que a cobertura enfatize o aspecto emocional dos casos, não é comum o aprofundamento de discussões estruturais sobre prevenção e enfrentamento da violência.
“Me mobilizou o incômodo de perceber que existe uma abertura para os familiares, mas a reportagem acaba não dando direcionamento sobre o que fazer. Mobilizar esse sentimento pode ser importante, porém também é relevante se perguntar que políticas públicas podem ser necessárias. A prisão pode ser necessária, mas existem outras medidas que também são, inclusive de prevenção. É importante aumentar esse debate”, afirma a pesquisadora.
Diante do cenário, a tese de Júlia propõe que os casos de feminicídio registrados não sejam tratados como isolados ou esporádicos, nos quais os assassinos são retratados apenas como monstros ou indivíduos desequilibrados. Para ela, a violência aparece como retrato de uma realidade de desigualdade, na qual ainda persiste a ideia de que o homem teria poder sobre a mulher, inclusive o poder de puni-la. Afinal, o fato de a legislação contra esse tipo de violência ser tão recente – pouco mais de uma década – também evidencia a necessidade de mudanças. Assim, a pesquisa aponta para a importância não apenas de narrar a dor, mas de ampliar o debate público sobre prevenção, políticas públicas e transformação social.
Neste 8 de março, Júlia defende que o Dia Internacional da Mulher precisa ser constantemente ressignificado, já que existem motivos para comemorar, mas ainda há muito o que evoluir. Ela reforça que a data deve ser encarada como momento de reflexão: “Parece simples, mas no Dia da Mulher é preciso lembrar que as mulheres são seres humanos e têm o direito humano mais importante, que é o direito à vida. Não é para idealizá-las. Se errarem, elas também têm esse direito. Ninguém tem o direito de puni-las”, conclui.
Fonte: https://conexao.ufrj.br/2026/03/feminicidio-e-violencia-ressignificando-o-dia-da-mulher/
Ilustração: Marco A. (SGCOM/UFRJ)


